Transtornos Alimentares

Sujeitos com transtornos alimentares (TA) apresentam como sintoma marcante o distúrbio da percepção corporal e uma insatisfação com o próprio corpo pois, de modo geral, se vêem e se sentem maiores do que realmente são. O corpo é o elemento chave nos TA, pois geralmente há um distúrbio na habilidade de reconhecer adequadamente e de forma consciente e realista seu peso, tamanho e forma, gerando uma falha de comunicação entre corpo e mente.

Os principais transtornos alimentares são a anorexia nervosa (AN) e a bulimia nervosa (BN). De acordo com a DSM-IV e a CID10, a AN caracteriza-se por perda de peso intensa e intencional à custa de dietas rígidas e métodos purgativos na busca desenfreada pela magreza e por distorção da imagem corporal. A BN caracteriza-se por grande ingestão de alimentos com sensação de perda de controle (episódios bulímicos). Uma característica importante tanto da AN quanto da BN é que há uma distorção da percepção da dimensão corporal.

A AN faz com que o indivíduo perceba sua dimensão corporal maior do que ela realmente é e esta má percepção corporal permanece mesmo com o ganho de peso. Manter a sensação de que o corpo está grande é um papel dinâmico na motivação para manter uma dieta restritiva aumentando o risco de recaída nos TA.

Para perceber o corpo, necessitamos tanto de informações externas e vivências, que estão relacionadas a um componente chamado de imagem corporal, quanto de uma somatória de informações acerca do corpo advindas do sistema nervoso, denominado esquema corporal. Reconhecer a forma corporal, suas dimensões e limites são de responsabilidade do mecanismo neural deste esquema corporal que está localizado em uma região cortical específica: a área parietal.

Na busca de uma melhor compreensão sobre o mecanismo da distorção da percepção corporal nos TA foi observado que o córtex parietal desempenha um papel importante na construção do esquema corporal e é este mecanismo neural que apresenta uma atividade anormal ou falhas em seu funcionamento, sendo este, o mecanismo que facilitaria o desenvolvimento da distorção da percepção corporal em sujeitos com TA.

Devido a esta imprecisão da percepção da dimensão corporal, seria importante fazer com que estes sujeitos percebam seu corpo e reconheçam mais precisamente seus limites corporais. Em termos gerais isto significa melhorar a percepção do corpo com o intuito de aprimorar o esquema corporal.

Uma forma de melhorar esta percepção seria fornecer estímulos corporais que auxiliem neste mecanismo perceptual. Estes estímulos, chamados de exteroceptivos e proprioceptivos, são encaminhados até o córtex parietal para construir o esquema corporal (o reconhecimento do corpo). Os estímulos corporais necessários para este mecanismo podem ser fornecidos por meio de atividades corporais específicas que respeitem a fisiologia neurológica da construção do esquema corporal.

Para atender a esta necessidade, elaboramos, um protocolo de intervenção na percepção corporal para sujeitos com TA. O protocolo proposto vem de encontro com os mecanismos neurais responsáveis pela construção do esquema corporal e propõem atividades específicas para estimular o mecanismo da percepção corporal. O intuito é restaurar a falha de comunicação deste circuito neural presente em sujeitos com TA. As atividades corporais podem ser realizadas individualmente ou oferecidas em grupo em clínicas, ambulatórios e hospitais.